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O ano em que meu filho teve câncer

Calesita Brinquedos / 19 de novembro de 2020

Ferdinando Casagrande*

O dia 15 de maio de 2018 vai entrar para a minha história como um dos mais tristes que já vivi. Foi na tarde daquela terça-feira nublada, sentado num consultório em Campinas, que ouvi da boca de um médico que meu filho caçula, então com 6 anos, tinha câncer. Eu não chorei naquele momento, nem me desesperei. Certamente era o choque, ou um mecanismo de negação que tentava me convencer que aquele médico rude estava errado. Mas ele estava certo. As lágrimas e o desespero vieram depois, e a tristeza se fundiu àquela lembrança de tal forma que até hoje eu choro quando me lembro daquele momento.

Nós havíamos nos mudado para Holambra, no interior de São Paulo, pouco mais de um ano antes. Não conhecíamos muita coisa por aqui, tínhamos poucas referências ainda. Mas na manhã seguinte já, a rede de apoio da comunidade reunida em torno da escola entrou em ação. Uma mãe me apresentou à pediatra da cidade e essa médica, que nunca havia nos  visto, parou tudo para me receber. Recolheu os exames que meu filho havia feito e nos encaminhou para o Centro Infantil Boldrini, referência na América Latina em oncologia infantil que eu, na minha ignorância, não sabia que ficava logo ali, em Campinas, a poucos quilômetros da minha cidade.

O diagnóstico veio alguns dias depois: Linfoma Não Hodgkins de Burkitt, uma espécie agressiva de tumor que se desenvolve rapidamente. Em meu filho, ele apareceu na forma de um inchaço na mandíbula direita, deformando o rosto e se espalhando pelo diafragma e pâncreas em questão de dias. A boa notícia era que o tratamento era conhecido e tinha alto índice de sucesso.

A quimioterapia começou imediatamente e, durante seis meses, convivemos com todos os seus efeitos terríveis sobre o organismo do meu filho. O tratamento é eficiente, de fato mata o câncer. O problema é que ele quase mata o paciente no processo, destruindo todas as células que se reproduzem em velocidade, o que inclui o sistema imunológico da criança. Foram meses de muita apreensão e angústia, mas em nenhum momento perdemos a fé.

Foi fundamental o fato de estarmos no Centro Infantil Boldrini, um lugar incrível em que pessoas realmente dedicadas se doam para salvar vidas. A obstinação da doutora Silvia Brandalise, uma pediatra que deixou o conforto da carreira brilhante na Unicamp para se dedicar integralmente ao tratamento do câncer infantil, faz do Boldrini um dos melhores lugares do mundo na área, com taxa de cura superior a 80%. Doutora Silvia, hoje com 77 anos de idade, acha pouco. O índice de cura era inferior a 5% quando ela trouxe o primeiro protocolo de tratamento de leucemia infantil para o Brasil, em 1979, mas ela diz que só vai descansar no dia em que conseguir curar 100% das crianças que procuram o hospital fundado por ela, uma associação sem fins lucrativos, que atende 70% de seus pacientes pelo SUS.

Protegido por tantas energias boas e tanta excelência, meu caçula respondeu bem ao tratamento. O dia 15 de outubro de 2018 também vai entrar para a minha história, mas como um dos mais felizes que eu vivi. Na manhã daquela segunda-feira, Caio voltou para a escola. Feliz por retornar para os amigos de quem tanta saudade ele sentia, feliz por poder compartilhar com eles as alegrias de seus últimos dias no parque mágico do Jardim de Infância, antes da mudança para o tão esperado 1o ano do Fundamental.

Ferdinando Casagrande é jornalista, escritor e pai de dois filhos de 10 e 8 anos.

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